A última doninha pelada da Dakota do Norte
Artigos com o marcador cinema
Ser “cult” ou, o guia do metido a besta
10/08/10
Todo mundo conhece alguém que é metido a “cult”, “alternativo” ou outro título do tipo. O tempo passa e os títulos mudam, mas o comportamento metido a besta geralmente permanece o mesmo. Geralmente envolve gostar de algo obscuro e “inacessível” ao grande público, e logo quando o objeto de adoração cai no gosto geral e vira moda, passar a dizer que “se tornou comercial”, “se vendeu para o sistema” ou algo que o valha.
Nesse contexto, o importante mesmo é citar, com ar blasé, algo que os outros farão cara de “uatarrel?”, para em seguida explicar com propriedade o que torna aquilo único e especial. Vale pra filmes, livros, música e aquele “lugarzinho” exclusivo. O lugarzinho é um caso à parte, um bar “muqueado” em algum canto da Barra Funda ou da periferia de Londres, que ninguém conhece, mas que tem uma atmosfera particular cheia de magia e exclusividade. A localização do lugarzinho é revelada em tom de segredo conspiratório, como se fosse a maçonaria dos cult, e depois de alguma insistência, quando a turma toda vai conhecer o local, é o boteco mais fuleiro, frequentado pelo povo mais esquisito e tocando as músicas mais bisonhas. Aí, o amigo “cult” diz: Que droga, estragaram o lugar, agora tem vindo gente que não tem nada a ver com a proposta do ambiente.
Outro detalhe importantíssimo é falar mal de qualquer filme de muito sucesso. Esse tipo de filme sempre é um insulto à inteligência (não sei de quem) e é muito melhor e mais cultural acompanhar o circuito alternativo no Espaço Unibancool da Augusta. Esse é o momento para lembrar daquele filme iraniano onde duas garotinhas sentadas num tapete no meio do deserto passam duas horas rolando uma pedra de uma para a outra, enquanto ao fundo é cantada uma poesia em árabe. É importante também comparar com os grandes monstros do cinema francês, falar de Kurosawa e apontar que “há talentos promissores despontando na cena boliviana”.
O modo de vestir também vai dizer muito sobre você. Crocs nos pés, calça de grife cuidadosamente produzida para parecer que é usada desde o século passado, contrastando com camisetas compradas nas lojas de marcas descoladas de novos estilistas despontando no mercado, com dizeres engraçadinhos, sátiras de marcas de consumo ou de símbolos da cultura pop e uns bordados enormes ou coisas brilhantes coladas assimetricamente.
A comida japonesa é o hours concours do seu estilo. É fundamental dizer que “descobriu um japonês fantástico” e mesmo que você não suporte peixe, o sushi de lá é insuperável.
O mais importante, não se prenda à nomes já consagrados no cliché de “cult”. Não basta dizer Bauhaus, Belle & Sebastian, Espaço Unibanco. Não basta dizer que Radiohead fala diretamente à sua alma, o importante mesmo é ser do contra, seguir em busca da música que ninguém ouve, dos filmes que ninguém vê e mesmo não gostando de nada disso, convencer a todos que você acha melhor do que as coisas que eles curtem.
Combate à pirataria: público alvo #fail
16/07/10
Quem tem filhos, sobrinhos, trabalha como babá ou simplesmente gosta de filmes infantis, com certeza já passou por isso e deve ter pensando o mesmo que eu. Primeiro pensamento: Sim, os filmes “infantis” e animações dos últimos anos tem sido muito melhores do que os lançamentos para adultos e público geral. Basta lembrar de Wall-e ou Monstros S/A, só para citar dois exemplos. Mas o segundo pensamento é o que você tem quando compra aquela aguardada edição especial…
Vamos lá, você coloca o DVD no aparelho e tenta fingir que não está mais ansioso que seu sobrinho para assistir o filme. Você comprou na pré-venda, edição especial dupla em lata personalizada ou qualquer outra firula que o valha e agora encara a tela com os olhos brilhando enquanto o logo da “Disney DVD” se ilumina na tv. Dane-se o logo, vamos logo para o filme. Você clica no botão de menu e aquele ícone de “operação proibida” aparece na tela. – Veja os incríveis lançamentos que a Disney DVD Home Entertainment Pictures Corporation Blablabla preparou especialmente para você – diz a narração, enquanto apresenta as cenas da remasterização de “A Bela Adormecida” de 1921. Já começando a se irritar, você aperta “stop” no controle remoto, na esperança de que, ao apertar o “play” novamente, o disco vá direto para o menu, ou ainda melhor, na esperança de que o filme comece.
Mas que surpresa, o logo acende novamente na tela e a apresentação dos trailers começa do zero novamente. Seu sobrinho já desencanou e foi brincar com o cachorro, te abandonando em meio aos intermináveis comerciais que serão vistos e revistos a cada vez que botar esse DVD pra tocar.
Depois de cerca de 11 minutos, pouco antes de receber a “permissão de acesso” ao menu do DVD, vem aquele comercial dos IDIOTAS da APCM te dizendo que pirataria é crime, que comprar DVD pirata é roubo. VAI PARA O INFERNO, APCM! Se eu tô vendo esse comercial no DVD original, é porque comprei ou aluguei o original. E se eu tô vendo a porcaria do disco original (que não me deixa pular esse comercial e que não me deixa pular o trailer) é porque eu não comprei o disco pirata. Esse comercial tem que passar na TV, no cinema, mas não na porcaria do DVD original!
E nesse exato momento que eu penso que, no disco pirata, eu já teria visto 15 minutos do filme, junto com meu sobrinho que agora estaria quietinho e prestando atenção, e não correndo pela casa e gritando junto com o cachorro e me impedindo de prestar atenção no filme, que finalmente vai começar….
MR: Legion
22/04/10
Deus desencanou da humanidade. De saco cheio da nossa arrogância e falta de fé, Ele resolve fazer aquela “limpeza geral”, mas como a idéia de dilúvio já não era nenhuma novidade, dessa vez a “arma de destruição em massa” divina é um exército de anjos. Mas um deles, achando que a homem ainda merecia uma segunda chance, resolve ficar ao nosso lado e tentar proteger o restinho de esperança que sobrou. Trancados num restaurante velho no meio do deserto, um pequeno grupo tenta entender o que está acontecendo enquanto se protegem das pessoas “possuídas” pelos anjos (que têm aquele clima de filme de zumbi).
Legion, guardadas as devidas proporções, redefine o conceito de filme “bíblico”. Um bom filme de ação e suspense onde o fundo religioso proporciona uma certa originalidade e dá aquele gostinho de coisa nova e como todo filme de ação que se preze, os diálogos não são nenhum primor e tem algumas forçadas enormes e certos clichês estão ali batendo o cartão, mas pode assistir sem medo pois nada disso arranha o brilho dessa produção. Pelo contrário, comecei vendo o filme deitado no sofá e quinze minutos depois, estava sentado e bem acordado.
MR: Chernaya Molniya (Black Lightning)
14/03/10
Daí o Raul (@messinmotion) me manda no msn a seguinte frase em russo: chernaya molniya. Chernaya eu sabia que era a cor negra, quando usada como adjetivo, mas molniya era algo que nunca tinha ouvido antes. Procurei no google e vi que era um filme russo. Recente inclusive, lançado em dezembro de 2009.
A sinopse não era nada de empolgante. Um garoto ganha um carro velho de aniversário e descobre que o carro voa. Taí um enredo que não me convencia a assistir, aí vi no poster o nome do Timur Bekmambetov, o que era um ponto positivo. Achei o trailer e fui ver a cara do filme. Ok, resolvi criar coragem e descobri que o filme é um remake russo de Spiderman, mas sem aranha… Dá pra ver o dedo do Timur na produção, com algumas cenas de ação de edição rápida, no estilo dos Guardiões ou do Wanted. Algumas figuras no elenco que são bem comuns nos filmes dele (como o cara que faz o Zavulon em Guardiões, e o vampiro açougueiro). Trilha sonora no mesmo estilo também. Mas o roteiro é uma cópia muito descarada de Spiderman. Só faltou o pai do garoto dizer “Com um grande carro vêm grandes responsabilidades”, todo o resto tá lá, olha só:
- O cara é um loser, tem um amigo rico que dá em cima da moça que ele gosta. Ganha o carro e só pensa em usá-lo para ganhar dinheiro, até que o pai dele morre, ele se sente culpado e resolve usar os poderes do carro voador para salvar as pessoas. Tem até um “Norman Osbourne” que deseja usar a fonte de poder do carro para seu próprio lucro.
No geral, é um filme divertido, mas em resumo não passa de uma reprise de Spiderman dublada em russo, até a cena em que ele perde o ônibus a caminho da escola no começo é igual.