O crítico de cinema, o coringa e o bolo de fubá
Salvo poucas exceções, o crítico de cinema é por definição alguém frustrado e amargo, cuja ânsia por demonstrar cultura e bagagem cultural tornam seus textos literalmente venenosos. Apesar de generalizar, já li ótimas críticas, mas confesso que nunca me baseio em uma para decidir o que assistir.
A despeito de todo o hype, fui ver “O Coringa”, digo, o novo filme do Batman, como qualquer garoto fã de super heróis. Gostei do filme, mas não é a opinião que vem ao caso.
O crítico de cinema deve ser como o crítico de gastronomia. Tem o direito de gostar ou não, mas antes de provar o prato (assistir ao filme), deve despir-se de seus preconceitos ou procurar outra profissão. O crítico gastronômico que não gosta de palmito ou de alcachofra, como poderá avaliar imparcialmente um prato? E o crítico de arte que não gosta de azul ou vermelho? Vai escrever que Renoir é uma porcaria por causa de “Rosa e Azul”?
Ok, mas onde eu quero chegar com essa história? Em 29 de julho, João Pereira Coutinho, “crítico” de cinema da folha e chato de galochas e carteirinha, publicou “Adultos em Pijamas” na Ilustrada. O texto é também um atestado de frustração e mostra que o autor leva para a sala de projeção as opiniões prontas do que gosta e não gosta.
Numa aparente dificuldade em encontrar falhas no filme, ao invés de criticar a atuação, a direção, a fotografia, a edição, o “crítico” embarca numa egotrip filosófica e critica as roupas dos super heróis, e não falo do figurino do filme, mas sim, do simples fato dos heróis e vilões utilizarem fantasias.
“… morro de rir quando vejo um ator, supostamente adulto e racional, enfiado num pijama colorido e disposto a salvar a humanidade das mãos maléficas de um vilão tão ridículo e tão colorido quanto ele.”
“Infelizmente para os criadores, a narrativa não é apenas infantil em sua pretensão política e filosófica; é incongruente quando Batman ou Coringa entram no enquadramento.” – A frase do crítico poderia muito bem se aplicar a seu próprio texto, que se inicia com um pretensioso: “Minha adolescência cinéfila não foi só Bergman, não foi só Bresson, não foi só Renoir. Nos intervalos, escondido de meus amigos intelectuais, eu gostava de assistir a Clint Eastwood limpando as ruas de San Francisco.”
Cinema é entretenimento, filme de arte é filme de arte (podendo divertir tanto quanto um blockbuster, em certos casos) e a avaliação de cada uma dessas formas de fazer cinema deve ser feita de forma diferente. Ninguém vai ao McDonald’s esperando encontrar Steak au Poivre e sai de lá falando que o “chef” pisou na bola. Uma história de super heróis pode sim apresentar uma fantasia numa roupagem “realista” e nem por isso ter a pretensão de ser um filme filosófico. Citações e frases de efeito estão ali dentro de um contexto, e não “propondo uma reflexão”.
“Mas mesmo os vigilantes das telas têm de cumprir um segundo requisito: não podem usar collants, máscaras, pinturas ou capas supostamente voadoras.” – Gostaria de saber o motivo, e perguntar a todos o que fazer com a tonelada de heróis mascarados que permanecem firmes e fortes, divertindo cada geração de crianças de todas as idades. Batman, Super Homem, os X-Men, Demolidor, Homem Aranha, só pra citar os mais populares. A máscara de “V” de vingança infantiliza o personagem e torna o filme ruim?
Como se não fosse suficiente falar mal dos heróis, nosso crítico volta sua metralhadora verbal aos fãs, que cometeram o crime de gostar dos super heróis:
“Sem falar dos fãs: homens feitos, alguns casados, que continuam a acreditar que um super-herói em pleno vôo compensa todas as ereções falhadas.”
Eu aposto que, proporcionalmente, o filme teve muito mais avaliações positivas que o “lamento” infelizmente publicado como crítica na Folha.
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